O cenário se repete. Um executivo recebe a proposta da concorrente — pacote maior, cargo melhor, decisão praticamente tomada. E a pergunta que quase ninguém faz a tempo: o que acontece com as ações que ainda não vestiram — e com o imposto sobre as que já vestiram?

A resposta que a maioria carrega na cabeça costuma errar nos dois pontos. E, num pacote de executivo, o custo desse erro chega com facilidade à casa das centenas de milhares de reais — não em perda de mercado, em imposto que dava para ter desenhado.

A saída de um cargo sênior é o evento financeiro que mais gente trata como se fosse só de carreira. É também um evento tributável. E, ao contrário de quase tudo na vida do executivo, ele ainda pode ser desenhado — enquanto você não assinou.

Vestido é seu. Não vestido, na maioria dos planos, evapora.

Comece pela parte simples. As ações que já vestiram são suas: você sai com elas. As que ainda não vestiram — em cliff, ou no meio do cronograma — são, na regra geral dos planos, canceladas no desligamento.

"Regra geral" é a parte que custa caro. O que decide é o documento do seu plano, não o senso comum. Cláusulas de aceleração por mudança de controle, por desligamento sem justa causa ou por aposentadoria podem mudar tudo. Há planos em que pedir demissão zera o não vestido, mas ser desligado acelera parte dele. A diferença entre as duas portas, num pacote relevante, é de seis dígitos. Ler esse documento é a primeira tarefa — antes de avisar qualquer pessoa de que você vai sair.

RSU, stock option e phantom stock: por que o imposto de cada um é diferente

O mercado fala de "ações da empresa" como se fosse uma coisa só. Para o imposto, são três coisas com regimes que hoje chegam a ser opostos. Saber qual é o seu não é detalhe — é o que define quanto você paga e quando.

RSU (restricted stock units). Você não paga nada para receber. No vesting, a ação cai na sua conta e a Receita lê o valor de mercado naquele dia como remuneração do trabalho. Vai para a tabela progressiva do IRPF, alíquota de até 27,5%, e a Receita costuma tratar a RSU como remuneração também para fins de contribuição previdenciária e demais encargos — há forte tendência de incidência —, embora existam teses e decisões judiciais em sentido contrário, sustentando a ausência de natureza salarial. Esse imposto vence no vesting — você tendo vendido ou não uma única ação.

Stock option (onerosa). Aqui você paga um preço de exercício para comprar as ações. E aqui mora a notícia que muita gente ainda não processou: no Tema 1.226 (Recurso Especial 2.069.644), julgado sob o rito dos recursos repetitivos, o STJ fixou que esse tipo de plano — quando genuinamente oneroso, voluntário e com risco real — tem natureza mercantil, não remuneratória. Consequência direta: não incide IRPF no exercício. O imposto só aparece quando você vende as ações com lucro, como ganho de capital — em regra, com alíquotas progressivas de 15% a 22,5% fora de bolsa, ou pela sistemática de renda variável quando negociadas em bolsa (apuração mensal, com alíquota de 15% nas operações comuns e isenção para vendas de até R$ 20 mil por mês no mercado à vista).

Phantom stock. Não há ação nenhuma. É um bônus em dinheiro indexado ao preço da ação. Tributa como remuneração pura, tabela progressiva, no pagamento. Simples e caro.

O detalhe que inverte a conta

A vitória do Tema 1.226 é das stock options onerosas. RSU é gratuita — ficou de fora. Se o seu equity é RSU, a decisão do STJ não reduz o seu imposto no vesting. Tratar uma como a outra é o erro mais comum que vejo nessa mesa.

Vale ser honesto sobre o que ainda está em aberto — e sobre o que já deixou de estar. De um lado, o STF, no Tema 1.440, afastou a repercussão geral e reconheceu que a discussão sobre IRPF em stock options é infraconstitucional: na prática, prevalece o entendimento do STJ no Tema 1.226, de que planos genuinamente onerosos têm natureza mercantil e só sofrem IR na venda, como ganho de capital. De outro, o STJ afetou o Tema 1.379 para discutir a incidência, ou não, de contribuição previdenciária e de terceiros no exercício da opção; processos sobre o assunto foram suspensos, e o desenho fático do plano — onerosidade, risco, voluntariedade — continua decisivo.

A tese do IRPF para stock options onerosas está hoje consolidada, mas a fiscalização ainda testa as bordas — sobretudo em planos que se chamam "opção" e na prática funcionam como entrega gratuita. A forma do plano importa mais do que o nome dele.

O que a maioria não calcula antes de pedir demissão

Três contas costumam ficar de fora da decisão de sair. Cada uma morde sozinha. Juntas, definem o ano fiscal mais caro da sua carreira.

O empilhamento. Se a sua saída aciona aceleração de vesting de RSU, todo o valor acelerado é remuneração reconhecida de uma vez, no mesmo exercício. Some isso ao salário do ano, ao bônus, à eventual indenização — e você entra inteiro na alíquota máxima, com retenção na fonte. O ano em que você sai já tende a ser o de maior renda. A aceleração transforma "maior" em "topo da tabela".

O descasamento de caixa. O IR do vesting de RSU vence quando a ação entra, não quando você vende. Se você está em período de vedação de negociação previsto na Resolução CVM 44 — a típica janela fechada para administradores e quem tem acesso a informação relevante ainda não divulgada —, pode estar impedido de vender exatamente quando precisa de caixa para pagar o imposto sobre ações que ainda nem viraram dinheiro. Imposto real sobre liquidez que você não tem.

A sequência. Vender toda a posição de uma vez para "limpar a mesa" empilha o ganho de capital no mesmo ano da remuneração do vesting. São duas bases tributáveis grandes no mesmo exercício, quando poderiam estar em exercícios diferentes.

A decisão de sair não é só de carreira. É um evento tributável que você ainda pode desenhar — enquanto não assinou.

Como estruturar a saída para minimizar o IR

Nenhuma dessas alavancas é exótica. Todas dependem de uma coisa: serem acionadas antes do evento, não depois. Depois de assinar, você administra o que sobrou.

Leia o cronograma de vesting contra a data de saída. Às vezes adiar a saída em poucas semanas leva você para depois de um vesting que de outro modo evaporaria; às vezes sair antes evita uma aceleração que jogaria tudo num ano já pesado. A data da assinatura é uma variável fiscal, não só de RH.

Escalone as vendas entre exercícios. Para RSU, o imposto de remuneração já está dado no vesting; o que você controla é o ganho de capital ou o resultado em renda variável sobre a valorização posterior. Distribuir vendas ao longo de mais de um ano evita concentrar ganho num único exercício e abre espaço para usar as isenções onde elas couberem — vendas de ações em bolsa até R$ 20 mil por mês permanecem isentas na sistemática de renda variável, enquanto continua valendo a isenção de até 35 mil reais por mês na venda de determinados bens e direitos de pequeno valor, na regra geral de ganho de capital.

Separe as bases. Sempre que possível, não deixe o ganho de capital e a remuneração do vesting caírem no mesmo ano. Sequenciar os dois eventos é, com frequência, a alavanca mais simples e mais subestimada.

Provisione o caixa do imposto antes do blackout. Se há janela fechada à vista, o caixa para o IR do vesting precisa estar reservado antes, não depois. É a diferença entre pagar o imposto e ter que vender no pior momento para pagá-lo.

Se o seu equity é opção, aproveite o regime certo. Pós-Tema 1.226, a opção onerosa tende a ser melhor tributada segurando as ações e realizando como ganho de capital na venda — não correndo para tratar nada como remuneração. Mas isso exige que o plano de fato tenha onerosidade e risco. Plano que se chama opção e funciona como brinde não compra a tese.

Nada disso substitui a leitura do seu plano específico e a validação com um tributarista — esta é uma área em movimento, e o desenho ótimo é o seu, não o genérico. O ponto é anterior: a hora de fazer essa conta é antes de você dizer que vai sair.

Calcule o IR sobre suas RSU antes de decidir

Estou montando uma calculadora que estima o imposto sobre suas ações em diferentes cenários de saída — vesting acelerado, escalonamento de venda, opção versus RSU. Entre na lista e receba assim que sair.

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